Marlene

Os versos, as rimas, os sonhos nos dão tranquilidade e paz!

Meu Diário
09/12/2014 05h34
Homenagem- Noémia de Sousa

 

Nascida em Catembe, Moçambique em  1926, faleceu em Cascais, Portugal em 2002. Foi poeta, jornalista e viajou por toda a África por conta de sua profissão – agente de notícias internacionais- cobrindo as lutas pela independência de vários países. Seu primeiro livro de poesias Sangue Negro foi publicado em 2001. Alguns poemas desta excelência em poesia e humanidade.

 

Nossa irmã lua

Uma irmãzinha meiga eu nos cubra

a todos com a quentura terna e gostosa

do seu carinho...

que entorne toda a sua claridade

sobre nossas tristes cabeças vergadas.

e,  como um feitiço forte e misterioso,

nos afugente as raivas fundas e dolorosas

de revoltados,

com a sua morna carícia de veludo...

sua enorme mão,

luminosamente branca, consegue-nos tudo.

E sob o seu feitiço potente, serenamos.

E pouco a pouco, momento a momento,

Sossegando vamos...

Fechando nossos olhos pacientes de esperar,

Já podemos vogar no mar

Para dos nossos sonhos cansados...

E até podemos cantar o nosso lamento...

De olhos para dentro, para dentro de nós,

Sentimo-nos novamente humanos,

Somos nós novamente,

E não brutos e cegos animais aguilhoados...

Sim. Nós cantamos amorosamente

A lua amiga que é nossa irmã

- Embora nos repitam que não,

Nós o sentimos fundo no coração...

( que bem vemos

Que no seu largo rosto de leite há sorrisos brancos de doçura

Para nós seus irmãos...)

Só nós compreendemos

Como é que sendo tão branca a nossa irmã,

Nos possa ser tão completamente crista,

Se nós somos tão negros, tão negros,

Como a noite mais solitária e mais desoladamente escura...

 

Se me quiseres conhecer –

 para Antero de Quental

 

Se me quiseres conhecer,

Estuda com olhos de bem ver

Este pedaço de pau preto

Que um desconhecido irmão maconde

De mãos inspiradas

Talhou e trabalhou em terra distantes lá do norte.

Ah! Essa sou eu:

Órbitas vazias no desespero de possuir a vida

Boca rasgada em ferida de angústia,

Mãos enormes, espalmadas,

Erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,

Corpo tatuado feridas visíveis e invisíveis

Pelos chicotes  da escravatura...

Tortura  e magnífica

Altiva e mística,

Africa da cabeça aos pés,

-Ah, essa sou eu!

Se quiseres me compreender-me

Vem debruçar-te sobre  minha  alma de África,

Nos gemidos dos negros no cais

Nos batuques frenéticos do machopes

Na rebeldia dos machanganas.

Na estranha melodia se evolando

Duma canção nativa noite adentro

E nada mais me perguntes,

Se é que me queres conhecer...

Que não sou mais que um búzio de carne

Onde a revolta de África congelou

Seu grito inchado de esperança.

( In Notícias 7 de março de 1958 pag “Moçambique 58”

 

Grão de’areia

Um só ínfimo grão de’areia

nunca imaginei

pesar tanto...

 

eu depondo

no clássico  ritual

sobre nosso adeus

constrangidos torrões

à mancheias.

 

Minha dor

 

Dói

a mesmíssima angústia

nas almas dos nossos corpos

perto e à distância.

 

E o preto que gritou

é a dor que se não vendeu

nem  na hora do sol perdido

nos muros da cadeia.

 

 

Aforismo

Havia uma formiga

compartilhando comigo o isolamento

e comendo juntos.

 

Estávamos iguais

com duas diferenças:

 

Não era interrogada

e por descuido podiam pisá-la.

 

Mas aos dois intencionalmente

podiam pôr-nos  de rastos

mas não podiam

ajoelhar-nos.

 

 


Publicado por MVA em 09/12/2014 às 05h34
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